Ensemble Hotteterre é um agrupamento com sede na Galiza especializado na interpretação de música europeia dos séculos XVI - XVIII. O ilustre músico nascido em Paris Jaques-Martin Hotteterre, Le romain (1674-1763), dá nome ao grupo em virtude do papel destacado que a gaita de fole teve em origem. Com uma consideração radical, na técnica e na interpretação, deste instrumento, o Ensemble Hotteterre aparecia no âmbito da interpretação histórica como uma das pouquíssimas formações, entre aquelas com certa estabilidade, onde ele e o seu repertório anterior a 1800 ocupavam um lugar estrutural. Tampouco era muito difícil isto, o território é um ermo. 

As interpretações do Ensemble Hotteterre caracterizam-se pelo apurado trabalho técnico, pelas nuances dinâmicas e expressivas, pelas relações subtis criadas entre os instrumentos. Contudo, a firme pretensão do grupo é sempre deixar de lado, enquanto o concerto avança, qualquer fetichismo do objecto ou dos meios para assim chegar à experiência estética não-estetizada e sensual produtora de novas formas de vida, fim último e irrenunciável de qualquer iniciativa artística.

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O mais fiel dos amantes

Obras a 1, 2, e 3 partes de Jacques-M. Hotteterre (1674-1763)

gaita de fole  paulo gonçalves                                Hugo Sanches                teorba

gaita de fole  Ánxela V. Trabada-Crende               Xurxo Varela   viola da gamba

Gravado nos dias 27 e 28 de novembro de 2020 na igreja de Vila Nova de Alhariz

O mais fiel dos amantes

Obras a 1, 2, e 3 partes de Jacques-M. Hotteterre (1674-1763)


...Fui ter com Mr. Hauteterre, flauta do Rei, quem me recebeu nas suas dependências na rua Dauphine muito amavelmente embora com um ar algo afetado e pomposo. […] mostrou-me algumas formosas flautas feitas por ele e das que espera ganhar bom proveito. Depois, trouxe as suas obras musicais, cinco das quais já tinham sido publicadas com considerável aplauso. Logo a seguir mostrou-me outro instrumento […] que ele tinha melhorado, uma gaita de fole, muito agradável e muito em voga aqui nos dias de hoje, […] torneada com marfim e com numerosas chaves de prata. Tocou com ela uma sonata acompanhado no cravo por outro músico. Tocou incomparavelmente bem, dum jeito absolutamente aprazível, com ornamentos tão bem interpretados que não poderia eu deixar de ouvi-los nem admirá-los o suficiente.  

Johann Friedrich Armand von Uffenbach

          Jacques-Martin Hotteterre, le romain, pertence a uma família de músicos e luthiers vinculada à corte francesa desde a primeira metade do século XVII, sendo o elo essencial deste vínculo a gaita de fole. O seu avó, Jehan Hauteterre, trabalha na corte nos últimos anos do reinado de Louis XIII e nos anos da regência de Anne de Áustria tendo o cargo de “Gaita do Rei”. Semelhante condição terão o seu pai, Martin Hotteterre, e o seu irmão mais velho, Jean, ambos os dous “Oboé e Gaita de Poictiou” na Grand Écurie. A esta família Hotteterre, e a Jacques le romain em particular, pode atribuir-se com certeza um papel inestimável no desenvolvimento da gaita de fole no fim do século XVII e primeira metade do século XVIII

          Em outubro de 1715 Johann Friedrich Armand von Uffenbach escreve no seu diário as impressões da visita realizada no dia 25 desse mês a Jacques-Martin Hotteterre. Delas, a causada pela interpretação duma sonata que o compositor faz com a gaita de fole acompanhado do cravo foi tão intensa que o músico alemão, recém graduado em leis, repetirá a visita uns meses mais tarde para, “porque assim expressamente o solicitei”, ouvir novamente ao compositor “tocar magistralmente” com tal instrumento. E é que na literatura epistolar privada aparece-nos um Jacques Hotteterre cuja relação íntima e também profissional com a gaita de fole não tem sido tratada na sua justa medida pela história, ou a História. Olhamos pelo buraquinho e vemos lá no fundo um Hotteterre que toca gaita em privado para impressionar as visitas no seu papel de intérprete, um que não hesita em amostrar a gaita para se gabar da sua habilidade como construtor de instrumentos, um que interpreta, como profissional reputado, com a gaita em público em situações destacadas, como assim faz, ponhamos por caso, no ano 1728 perante o Rei, a Rainha e a corte ao completo num divertissement que ele próprio dirige.

          Hotteterre pertence a uma época de códigos firmes. Códigos há que regulam, sequer formalmente, o jeito de as elites sócio-económicas interagirem em sociedade Em âmbitos artísticos, música, dança, pintura, determinados requisitos regem e incidem na técnica, nos modelos, nos temas, e as Académies velam para que isso assim seja. A vigilância implacável e o controlo obsessivo tencionam, antes como agora, atrelar o que foge. Mas ao mesmo tempo, e não pode ser doutro jeito, sempre há fugas, movimentos de desterritorialização. A obra de Hotteterre é música de intensidades difíceis de igualar. Move-se molarmente no território que se lhe impõe, nenhum problema há com isso, mas molecularmente porta intensidades, provoca impactos violentos, engendra sensibilidades outras. L'amant le plus fidelle. Estamos perante um programa que explora esses movimentos na obra do insigne compositor de origem normanda, obra camerística de pequeno formato, a solo, a duas, e a três partes, e dá protagonismo, ao tempo que o restitui no lugar ao que por avoengo pertence, ao instrumento talvez mais querido –que as flautas não se anojem– pelo compositor: a gaita de fole.

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