O mais fiel dos amantes
Obras a 1, 2, e 3 partes de Jacques-M.
Hotteterre (1674-1763)
...Fui
ter com Mr. Hauteterre, flauta do Rei, quem me recebeu nas suas
dependências na rua Dauphine muito amavelmente embora com um ar algo
afetado e pomposo. […] mostrou-me algumas formosas flautas feitas
por ele e das que espera ganhar bom proveito. Depois, trouxe as suas
obras musicais, cinco das quais já tinham sido publicadas com
considerável aplauso. Logo a seguir mostrou-me outro instrumento […]
que ele tinha melhorado, uma gaita de fole, muito agradável e muito
em voga aqui nos dias de hoje, […] torneada com marfim e com
numerosas chaves de prata. Tocou com ela uma sonata acompanhado no
cravo por outro músico. Tocou incomparavelmente bem, dum jeito
absolutamente aprazível, com ornamentos tão bem interpretados que
não poderia eu deixar de ouvi-los nem admirá-los o suficiente.
Johann Friedrich Armand von Uffenbach
Jacques-Martin
Hotteterre, le
romain,
pertence a uma família de músicos e luthiers
vinculada à corte francesa desde a primeira metade do século XVII,
sendo o elo essencial deste vínculo a gaita de fole. O seu avó,
Jehan Hauteterre, trabalha na corte nos últimos anos do reinado de
Louis XIII e nos anos da regência de Anne de Áustria tendo o cargo
de “Gaita do Rei”. Semelhante condição terão o seu pai, Martin
Hotteterre, e o seu irmão mais velho, Jean, ambos os dous “Oboé
e Gaita de Poictiou” na Grand Écurie.
A esta família Hotteterre, e a Jacques le
romain em
particular, pode atribuir-se com certeza um papel inestimável no
desenvolvimento da gaita de fole no fim do século XVII e primeira
metade do século XVIII
Em
outubro de 1715
Johann
Friedrich Armand von Uffenbach escreve no seu diário as impressões
da visita realizada no dia 25 desse mês a Jacques-Martin Hotteterre.
Delas, a causada pela interpretação duma sonata que o compositor
faz com a gaita de fole acompanhado do cravo foi tão intensa que o
músico alemão, recém graduado em leis, repetirá a visita uns
meses mais tarde para, “porque assim expressamente o solicitei”,
ouvir novamente ao compositor “tocar magistralmente” com tal
instrumento. E é que na literatura epistolar privada aparece-nos um
Jacques Hotteterre cuja relação íntima e também profissional com
a gaita de fole não tem sido tratada na sua justa medida pela
história, ou a História. Olhamos pelo buraquinho e vemos lá no
fundo um Hotteterre que toca gaita em privado para impressionar as
visitas no seu papel de intérprete, um que não hesita em amostrar a
gaita para se gabar da sua habilidade como construtor de
instrumentos, um que interpreta, como profissional reputado, com a
gaita em público em situações destacadas, como assim faz, ponhamos
por caso, no ano 1728 perante o Rei, a Rainha e a corte ao completo
num divertissement
que ele próprio dirige.
Hotteterre
pertence a uma época de códigos firmes. Códigos há que regulam,
sequer formalmente, o jeito de as elites sócio-económicas
interagirem em sociedade Em âmbitos artísticos, música, dança,
pintura, determinados requisitos regem e incidem na técnica, nos
modelos, nos temas, e as Académies
velam
para que isso assim seja. A vigilância implacável e o controlo
obsessivo tencionam, antes como agora, atrelar o que foge. Mas ao mesmo
tempo, e não pode ser doutro jeito, sempre há fugas, movimentos de
desterritorialização. A obra de Hotteterre é música de
intensidades difíceis de igualar. Move-se molarmente
no território que se lhe impõe, nenhum problema há com isso, mas
molecularmente
porta intensidades, provoca impactos violentos, engendra
sensibilidades outras. L'amant
le plus fidelle. Estamos perante um programa que explora esses movimentos na obra do insigne
compositor de origem normanda, obra camerística de pequeno formato, a solo, a
duas, e a três partes, e dá protagonismo, ao tempo que o restitui
no lugar ao que por avoengo pertence, ao instrumento talvez mais
querido –que as flautas não se anojem– pelo compositor: a gaita
de fole.